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Queria
chegar ao Volga a uma certo lugar. A Uma certa cidade. Que tem o
nome de Stalin. É um lugar importante. Dali se pode cortar 30
milhões de toneladas da exportação. Inclusive 9 milhões de
toneladas de petróleo. De lá, todo o trigo produzido nos
territórios da Ucrânia e Kuban é transportado para o norte. Lá
há grandes jazidas de manganês. É um enorme centro de comércio.
E eu queria toma-lo! E, como sabem , somos modestos. Já o tomamos.
Só restam uns poucos focos de resistência...
(
Adolf Hitler, por ocasião do aniversário do Pustch de Munique em 8
de novembro de 1942)
A Batalha de Stalingrado estendeu-se de 28 de julho de 1942 à 02 de
fevereiro de 1943. Desenvolveu-se na margem esquerda do Volga, no
meio do caminho entre a Ucrânia, o Cáucaso e as reservas de
petróleo de Bacu, no extremo sul da URSS. Uma terrível luta
envolvendo uma série de batalhas que entraram para história com
este nome, marco na derrota das forças nazistas no ápice da
expansão de seu avanço para o espaço vital do leste. Círculo
de Fogo (Enemy At The Gates, Alemanha, EUA, Reino Unido e
Irlanda, 2001) dirigido por Jean-Jaques Annaud propõem-se a recriar
um dos momentos mais dramáticos do século XX.
Depois de um rápido flashback sobre a infância do
personagem principal, nos deparamos com a travessia do Volga, em
setembro de 1942, por onde as reservas soviéticas vindas da
retaguarda eram lançadas na tentativa desesperada de conter o
ímpeto dos teutos. O quadro apresentado é aterrador, mas de um
profundo realismo. A impressão de estar diante do esqueleto da
cidade calcinada ofusca os personagens e espectadores. Diga-se de
passagem a reconstrução perfeita de cenários, de figurinos, da
maquinaria de guerra somada a caracterização dos atores é o ponto
alto da película. A dimensão física de Stalingrado recriada no
cinema é algo de grandiloqüente e ultra-realista.
Nuvens de Stukas mergulham sobre as barcaças, onde os oficiais da
NKVD – extensão militar da polícia política – tentam manter a
ordem a bala. O moral das tropas do Exército Vermelho era muito
baixo, pois vinha de uma série de derrotas importantes e o pânico
precisava ser contido a qualquer preço, sob ameaça de desmoronar
toda frente. Contudo, existe um exagero nas cenas em que os soldados
são exortados a atacarem uma posição germânica intransponível
sem ao menos terem armas para todos, e ao recuarem são metralhados
pelos comissários. Essas atitudes eram reservadas para fugas,
consideradas como deserção, não em recuos estratégicos, até
mesmo porque os oficiais soviéticos já haviam percebido desde a
defesa de Moscou que esse tipo ação era contraproducente apesar da
ordem expressa de Stalin: "Nenhum passo atrás" no dia 9
de outubro o poder dos comissários políticos sobre oficiais
militares foi revogado.
Vassili Zaitsev, em torno de qual gira a história existiu de fato,
foi um destacado franco-atirador russo que antes de ser ferido nos
olhos por um habilidoso oponente alemão contabilizava, segundo a
lenda, mais de 300 inimigos mortos por seu fuzil. Após sua
recuperação, passou para o treinamento de tropas e sobreviveu a
guerra. Muitos dos demais personagens são reais: o comissário
Danilov e o experiente colega de arma de Zaitsev, Nikolay Kulikov,
assim como teria existido o major alemão Koning da escola de tiro
de Berlim, encarregado de acabar com o russo cuja fama vinha sendo
exagerada e utilizada pela propaganda vermelha – segundo Vasili
Tchiukov – marechal soviético responsável pela defesa, em seu
relato sobre a batalha. Embora o duelo entre os dois tenha durado
apenas quatro dias, contrariando o filme.
A utilização de especialistas em tiro a longa distância foi uma
arma muito apreciada durante o transcorrer de todo conflito no leste
europeu, de ambos os lados. Todas as principais técnicas e truques
desse tipo de combate quase individual são muito bem explorados
pelo roteiro. Os russos os chamavam de "caçadores de animais
de duas pernas" e tiveram vários destacados caso de Viktor
Medvedev aluno de Zaitsev que o superou em número de mortes.
Partindo dessa história verídica o diretor que co-escreve o
roteiro com Alain Godard toma muitas liberdades artísticas na
tentativa de mostrar o instigante jogo de gato e rato dos atiradores
adversários enquanto a batalha ruge com violência crescente. No
filme, Zaitsev é mostrado como um jovem e humilde soldado, quando
na verdade era mais velho e declarou ao saber da chegada de um
alemão para elimina-lo, que este seria presa fácil dos russos.
Fato que não se mostrou tão simples, pois o alemão eliminou
alguns veteranos experientes. Que a história dos personagens seja
um pouco mudada pequenas em alterações para manter o interesse
comercial da película é algo corriqueiro no cinema, como demonstra
a introdução de um par romântico para ser disputado entre o
protagonista e seu mentor comissário Danilov, mas no ponto de vista
político e ideológico, Círculo de Fogo parece mais com uma
obra da Guerra Fria.
A boa intenção de criticar o stalinismo e a sacralização da
imagem do líder supremo que realmente existiu, perde-se na
satanização de Stalin, Khrushev e todos os comunistas. O filme da
impressão que o principal inimigo dos russos era de fato o
comunismo, os alemães são mero coadjuvantes, que vez por outra
cometem uma pequena atrocidade (como o assassinato de uma criança),
sendo que apenas uma é mostrada as outras são apenas evocadas, mas
nada comparado com os comissários políticos e a NKVD. Os nazistas
aparecem como inimigos civilizados, quando se sabe que um dos
principais fatores que levaram o povo soviético a lutar tenazmente
foi a falta de qualquer perspectiva perante as baionetas hitleristas.
Para o nazismo os eslavos eram subumanos ao lado dos judeus e devim
ser eliminados ou escravizados pela Herrenvolk (Raça
Dominante).
Nem mesmo o excelente Stalingrado a Batalha Final (Stalingrad,
Joseph Vilsmaier, Alemanha 1992), narrado numa perspectiva alemã é
tão condescendente com o tipo de guerra travada pela Wermacht
(máquina de Guerra Alemã) na Rússia. Retratando de forma muito
mais convincente o tratamento dispensado aos soldados russos e a
minguada população civil que mantinha-se na cidade quando da
chegada dos germânicos. Mas Jean-Jacques Annaud, que conta com um
histórico de bons filmes como A guerra do Fogo, O Nome da
Rosa, O Urso, O Amante, começou a mostrar suas
inclinações políticas na escolha de seu penúltimo filme Sete
Anos no Tibete (Seven Yers in Tibet, EUA, 1997), quando
contou a história da invasão daquela região na "singela
perspectiva" de um alpinista nazista, deixando claro que o
comunismo chinês havia acabado com o paraíso idílico, sem
mencionar que o mesmo era parte da China e vivia como uma teocracia
medieval e na perspectiva de aliar-se com potências inimigas dos
chineses.
Voltando ao seu último trabalho, o comissário Danilov, depois de
ter renegado, o comunismo e socialismo como sonhos utópicos, se
expõe para denunciar o franco-atirador alemão e é morto numa
grotesca fraude que representa sua redenção. O clímax do filme é
falso e carregado de uma conotação ideológica clara, pois apesar
do personagem real ter mesmo se exposto, ele foi apenas ferido, e
não existe nenhum registro sobre sua deserção política, e nem
mesmo o alemão foi morto em função de seu ato.
Stalingrado foi uma grande vitória, construída por um imenso
sacrifício, é o marco mais profundo na virada da maré da Segunda
Guerra Mundial em favor dos aliados, um braseiro que custou à
Hitler e seus diversos aliados (Itália, Romênia, Bulgária, entre
outros) mais 1.500.000 baixas entre mortos, desaparecidos, feridos e
prisioneiros. A maioria dos especialistas no tema, a consideram como
a mais importante e decisiva de todo conflito, é natural que o
poder do cinema de parecer-se com a realidade, misturar-se com ela
ou tomar seu lugar seja utilizado numa ótica revisionista, pois nem
mesmo os feitos históricos do socialismo devem prevalecer. A
chamada "Guerra Patriótica" não foi ganha pela aliança
do povo com os políticos, na crença de construir um mundo melhor
acalentado pelo socialismo, mas por brilhantismo individuais,
heróis destemidos e sobretudo apesar do comunismo. Em o Círculo
de Fogo os inimigos no portão do titulo original não são os
que querem entrar na cidade mas os que não deixavam sair dela.
*Graduado em
História/UFRGS e
Mestrando em História Pelo Programa de Pós-graduação da
PUCRS.
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