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Círculo de Fogo

Stalingrado Revisionista

Nilo André Piana de Castro*

 

Reprodução do site Terra/Cinema
 

        

 

Queria chegar ao Volga a uma certo lugar. A Uma certa cidade. Que tem o nome de Stalin. É um lugar importante. Dali se pode cortar 30 milhões de toneladas da exportação. Inclusive 9 milhões de toneladas de petróleo. De lá, todo o trigo produzido nos territórios da Ucrânia e Kuban é transportado para o norte. Lá há grandes jazidas de manganês. É um enorme centro de comércio. E eu queria toma-lo! E, como sabem , somos modestos. Já o tomamos. Só restam uns poucos focos de resistência...

( Adolf Hitler, por ocasião do aniversário do Pustch de Munique em 8 de novembro de 1942)

 

 

 

      A Batalha de Stalingrado estendeu-se de 28 de julho de 1942 à 02 de fevereiro de 1943. Desenvolveu-se na margem esquerda do Volga, no meio do caminho entre a Ucrânia, o Cáucaso e as reservas de petróleo de Bacu, no extremo sul da URSS. Uma terrível luta envolvendo uma série de batalhas que entraram para história com este nome, marco na derrota das forças nazistas no ápice da expansão de seu avanço para o espaço vital do leste. Círculo de Fogo (Enemy At The Gates, Alemanha, EUA, Reino Unido e Irlanda, 2001) dirigido por Jean-Jaques Annaud propõem-se a recriar um dos momentos mais dramáticos do século XX.

       Depois de um rápido flashback sobre a infância do personagem principal, nos deparamos com a travessia do Volga, em setembro de 1942, por onde as reservas soviéticas vindas da retaguarda eram lançadas na tentativa desesperada de conter o ímpeto dos teutos. O quadro apresentado é aterrador, mas de um profundo realismo. A impressão de estar diante do esqueleto da cidade calcinada ofusca os personagens e espectadores. Diga-se de passagem a reconstrução perfeita de cenários, de figurinos, da maquinaria de guerra somada a caracterização dos atores é o ponto alto da película. A dimensão física de Stalingrado recriada no cinema é algo de grandiloqüente e ultra-realista.

       Nuvens de Stukas mergulham sobre as barcaças, onde os oficiais da NKVD – extensão militar da polícia política – tentam manter a ordem a bala. O moral das tropas do Exército Vermelho era muito baixo, pois vinha de uma série de derrotas importantes e o pânico precisava ser contido a qualquer preço, sob ameaça de desmoronar toda frente. Contudo, existe um exagero nas cenas em que os soldados são exortados a atacarem uma posição germânica intransponível sem ao menos terem armas para todos, e ao recuarem são metralhados pelos comissários. Essas atitudes eram reservadas para fugas, consideradas como deserção, não em recuos estratégicos, até mesmo porque os oficiais soviéticos já haviam percebido desde a defesa de Moscou que esse tipo ação era contraproducente apesar da ordem expressa de Stalin: "Nenhum passo atrás" no dia 9 de outubro o poder dos comissários políticos sobre oficiais militares foi revogado.

        Vassili Zaitsev, em torno de qual gira a história existiu de fato, foi um destacado franco-atirador russo que antes de ser ferido nos olhos por um habilidoso oponente alemão contabilizava, segundo a lenda, mais de 300 inimigos mortos por seu fuzil. Após sua recuperação, passou para o treinamento de tropas e sobreviveu a guerra. Muitos dos demais personagens são reais: o comissário Danilov e o experiente colega de arma de Zaitsev, Nikolay Kulikov, assim como teria existido o major alemão Koning da escola de tiro de Berlim, encarregado de acabar com o russo cuja fama vinha sendo exagerada e utilizada pela propaganda vermelha – segundo Vasili Tchiukov – marechal soviético responsável pela defesa, em seu relato sobre a batalha. Embora o duelo entre os dois tenha durado apenas quatro dias, contrariando o filme.

       A utilização de especialistas em tiro a longa distância foi uma arma muito apreciada durante o transcorrer de todo conflito no leste europeu, de ambos os lados. Todas as principais técnicas e truques desse tipo de combate quase individual são muito bem explorados pelo roteiro. Os russos os chamavam de "caçadores de animais de duas pernas" e tiveram vários destacados caso de Viktor Medvedev aluno de Zaitsev que o superou em número de mortes.

         Partindo dessa história verídica o diretor que co-escreve o roteiro com Alain Godard toma muitas liberdades artísticas na tentativa de mostrar o instigante jogo de gato e rato dos atiradores adversários enquanto a batalha ruge com violência crescente. No filme, Zaitsev é mostrado como um jovem e humilde soldado, quando na verdade era mais velho e declarou ao saber da chegada de um alemão para elimina-lo, que este seria presa fácil dos russos. Fato que não se mostrou tão simples, pois o alemão eliminou alguns veteranos experientes. Que a história dos personagens seja um pouco mudada pequenas em alterações para manter o interesse comercial da película é algo corriqueiro no cinema, como demonstra a introdução de um par romântico para ser disputado entre o protagonista e seu mentor comissário Danilov, mas no ponto de vista político e ideológico, Círculo de Fogo parece mais com uma obra da Guerra Fria.

     A boa intenção de criticar o stalinismo e a sacralização da imagem do líder supremo que realmente existiu, perde-se na satanização de Stalin, Khrushev e todos os comunistas. O filme da impressão que o principal inimigo dos russos era de fato o comunismo, os alemães são mero coadjuvantes, que vez por outra cometem uma pequena atrocidade (como o assassinato de uma criança), sendo que apenas uma é mostrada as outras são apenas evocadas, mas nada comparado com os comissários políticos e a NKVD. Os nazistas aparecem como inimigos civilizados, quando se sabe que um dos principais fatores que levaram o povo soviético a lutar tenazmente foi a falta de qualquer perspectiva perante as baionetas hitleristas. Para o nazismo os eslavos eram subumanos ao lado dos judeus e devim ser eliminados ou escravizados pela Herrenvolk (Raça Dominante).

       Nem mesmo o excelente Stalingrado a Batalha Final (Stalingrad, Joseph Vilsmaier, Alemanha 1992), narrado numa perspectiva alemã é tão condescendente com o tipo de guerra travada pela Wermacht (máquina de Guerra Alemã) na Rússia. Retratando de forma muito mais convincente o tratamento dispensado aos soldados russos e a minguada população civil que mantinha-se na cidade quando da chegada dos germânicos. Mas Jean-Jacques Annaud, que conta com um histórico de bons filmes como A guerra do Fogo, O Nome da Rosa, O Urso, O Amante, começou a mostrar suas inclinações políticas na escolha de seu penúltimo filme Sete Anos no Tibete (Seven Yers in Tibet, EUA, 1997), quando contou a história da invasão daquela região na "singela perspectiva" de um alpinista nazista, deixando claro que o comunismo chinês havia acabado com o paraíso idílico, sem mencionar que o mesmo era parte da China e vivia como uma teocracia medieval e na perspectiva de aliar-se com potências inimigas dos chineses.

       Voltando ao seu último trabalho, o comissário Danilov, depois de ter renegado, o comunismo e socialismo como sonhos utópicos, se expõe para denunciar o franco-atirador alemão e é morto numa grotesca fraude que representa sua redenção. O clímax do filme é falso e carregado de uma conotação ideológica clara, pois apesar do personagem real ter mesmo se exposto, ele foi apenas ferido, e não existe nenhum registro sobre sua deserção política, e nem mesmo o alemão foi morto em função de seu ato.

       Stalingrado foi uma grande vitória, construída por um imenso sacrifício, é o marco mais profundo na virada da maré da Segunda Guerra Mundial em favor dos aliados, um braseiro que custou à Hitler e seus diversos aliados (Itália, Romênia, Bulgária, entre outros) mais 1.500.000 baixas entre mortos, desaparecidos, feridos e prisioneiros. A maioria dos especialistas no tema, a consideram como a mais importante e decisiva de todo conflito, é natural que o poder do cinema de parecer-se com a realidade, misturar-se com ela ou tomar seu lugar seja utilizado numa ótica revisionista, pois nem mesmo os feitos históricos do socialismo devem prevalecer. A chamada "Guerra Patriótica" não foi ganha pela aliança do povo com os políticos, na crença de construir um mundo melhor acalentado pelo socialismo, mas por brilhantismo individuais, heróis destemidos e sobretudo apesar do comunismo. Em o Círculo de Fogo os inimigos no portão do titulo original não são os que querem entrar na cidade mas os que não deixavam sair dela.

 

*Graduado em História/UFRGS e Mestrando em História Pelo Programa de Pós-graduação da PUCRS.

  

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