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Mestre dos Mares

Nilo André Piana de Castro*

 

 

Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo (Master and Commander: The Far Side of the World, EUA 2003) é o primeiro filme realizado por Peter Weir desde 1998 quando fez Truman Show. Para quem não lembra, uma eficaz abordagem da sociedade do espetáculo que recebeu justo destaque na época.  

            O lastro de sucessos do australiano Peter Weir contabiliza filmes como Gallipoli (1981), O Ano em que Vivemos em Perigo (1982), A Testemunha (1985), Sociedade dos Poetas Mortos (1989), entre outros. Mas também alguns naufrágios de crítica e bilheteria como A Costa do Mosquito 1985 e Sem Medo de Viver (1993). O retorno de Weir não pode ser totalmente festejado, Mestre dos Mares apesar de apresentar toda uma forma consistente, carece de conteúdo. As qualidades da produção e execução estão presentes nas locações belíssimas, no elenco afiado, no figurino perfeito, na reconstituição de navios, na dureza das batalhas, enfim nos aspectos físicos tudo está como se fosse realmente parte do início do século XIX, mas a relação humana e a profundidade dos personagens desenvolvida no roteiro não empolga nunca, nem ao menos tem um rumo certo.

            O roteiro foi adaptado por John Collee e Peter Weir a partir da série de livros publicada ao longo de 30 anos pelo escritor Patrick O’Brian. Mais especificamente, a história parece uma combinação do primeiro e do décimo livro, que tem como personagens principais o Capitão Jack Aubrey (Russell Crowe) e o Médico de Bordo Stephen Maturin (Paul Bettany). Em 1805 o navio britânico H.M.S. Surprise encontra-se na costa do Brasil e deve interceptar um navio de bandeira francesa que tentará levar a guerra naval para o Oceano Pacifico cruzando o Cabo Horn. 

            Os Ingleses comandados "Lucky" (sortudo) Jack, são subitamente atacados por uma embarcação inimiga mais poderosa. Escapam, graças a um “nevoeiro” na costa do nordeste brasileiro. Tão logo concertam os estragos partem em perseguição rumo ao sul cruzando às águas tempestuosas do Cabo Horn, aproximando-se do pólo entre neve e gelo. Enfrentam calmarias e chegam à costa das Ilhas Galápagos. Em termos visuais tudo está perfeito, a qualidade das imagens, fotografia e os detalhes técnicos dos navios da época. A forma como nos é detalhada a vida das tripulações nos barcos de guerra é outro dos pontos interessantes. Mas o núcleo dramático é muito superficial. A amizade e diferença de perspectiva entre o capitão e o médico de bordo não é suficientemente instigante ou desenvolvida (diferente dos romances de O’Brian nos quais a química dos personagens é perfeita). Resta ainda aplaudir Russell Crowe, por ter aprendido a tocar violino somente para o seu papel.

            O navio francês chama-se Acheron e é mostrado como um fantasma visto ao longe, sempre capaz de surpreender o experiente capitão britânico. Em termos de roteiro o truque é antigo, ocultar a ameaça para fazer suspense e manter a atenção do espectador. Além disso, no livro o Acheron não só era uma construção norte-americana, mas sim um navio dos EUA. Pelo menos 10 dos livros de Patrick O’Brian tem histórias ambientadas nas guerras-navais entre ING e EUA (1812-1814). Contudo, é compreensível que nos tempos atuais, da guerra contra o terror, não seja inteligente, nem mesmo comercial fazer um filme no qual os ianques são os vilões. 

Na adaptação para o cinema a ação passa-se durante as Guerras Napoleônicas, quando Napoleão controlava a maior parte do continente europeu. A abordagem do conflito marítimo desse período histórico não é novidade no cinema: O Falcão dos Mares (Capitain Horato Homblower, Raul Walsh, EUA,1951) e Revolta Em Alto Mar (HMS Defiant, Lewis Gilbert, ING, 1962). Esperava-se mais do que a mescla dos antigos épicos tratando do imaginário das guerras marítimas com efeitos especiais do século XXI.

Previsível desde o primeiro minuto, Mestre dos Mares não consegue encobrir as manobras do roteiro para adiar a batalha final que até o espectador mais ingênuo já sabe o resultado. Mesmo sendo o filme mais realista histórico-marítimo que o cinema americano nos apresentou, os personagens0, que se não chegam a ir a pique ficam a deriva sem emocionar. No ponto de vista histórico filme incide em alguns erros ao mencionar, algumas vezes, que a Inglaterra estava ameaçada de invasão por Napoleão; os franceses nunca foram mais poderosos que os Ingleses no mar. Napoleão nem sequer conseguiu controlar a costa da Europa conquistada, pela qual os produtos da Inglaterra continuaram entrando. Também pode parecer absurdo e inverosímil continuar na luta depois de ter quase 50% de baixas entre a tripulação no primeiro ataque dos franceses. E de quebra ainda ficamos sabendo da sorte de Charles Darwin; não fosse uma artimanha do capitão francês, ele teria perdido sua   prioridade nas Galápagos e provavelmente na teoria da evolução das espécies antes mesmo de ter nascido. A viagem de Darwin foi filmada em A Aventura de Darwin/ The Darwin Adventure, 1971, Dir. Jack Couffer. ING.

            Dentro dos aspectos positivos, a película pauta o mundo masculino da vida no mar de forma clara, também pode-se ressaltar o papel das crianças no navio. A total falta de consideração pela infância dos aspirantes pode parecer cruel, mas devemos lembrar que o posto de aspirante era reservado para uma classe privilegia e gerava expectativa de uma vida mais “confortável” e promissora. Os pequenos adultos jogados no fogo dos canhões podiam sonhar com um futuro bastante abastado, vislumbre praticamente impossível de ser alcançado entre os filhos dos operários e mineiros também destituídos da infância nesse mesmo período. A infância realmente foi uma invenção tardia.

Em contrapartida ao cuidadoso contexto histórico dos romances de Patrick O’Brian, o roteiro exala uma patriotismo numa época em que a marinha Real era composta por marinheiros de diversos lugares do mundo e os laços que os uniam não eram a defesa do Rei ou do Império, mas amizade, camaradagem, companheirismo, adquiridos no longo convívio na vida ao mar, este bem retratado na película.  

Por último devemos reconhecer o potencial de entretenimento de o Mestre dos Mares. É provável que em alguns anos seja visto como “Sessão da Tarde” com novos recursos, embora nesse sentido Piratas do Caribe seja mais divertido. 

*Professor de História graduado pela UFRGS, Mestre em História pelo programa de Pós-gradução da PUCRS, professor substituto de História do Colégio de Aplicação da UFRGS.