| |
Nilo André
Piana de Castro* |
|
|
Recentemente
parecia existir uma preocupação com os efeitos e poder da mídia em
filmes hollywoodianos, como Mera Coincidência (Barry
Levinson), Truman Show (Peter Weir) e o Quarto Poder
(Costa-Gavras). Todos, filmes tratando temas recentes e interessantes do
ponto de vista crítico. Ao voltarmos os olhos para o cinema mais
comercial, e portanto de maior alcance como mídia, também podemos ver
que o velho cinema de diversão ideológico anda funcionando a plena
máquina. |
|
|
Os
"inimigos da liberdade" e fundamentalistas extremados continuam
merecendo atenção e policiamento por parte de Tio Sam nas telas.
Deixando os povos islâmicos de lado, o que o cinema americano não faz a
muito tempo, nos deparamos com o resgate de um antigo "Vilão"
surgido no final dos anos quarenta início dos cinqüenta, a China
Vermelha. Hollywood mostra uma espécie de "face camaleônica"
onde seus velhos artifícios vão e voltam, além de se moldarem conforme
o contexto internacional, muitas vezes, tendo apenas uma nova maquiagem. |
|
|
Essa
poderosa nação insurgente, foi um dos alvos preferidos do cinema
americano durante a Guerra Fria, só superada pelo ataque a URSS e talvez
a antiga Alemanha Oriental. Isso deve-se em parte por ter ousado chocar-se
com a política americana traçada para Ásia pós Segunda Guerra. Não
podemos perder de vista o enfrentamento direto na Guerra da Coréia, onde
os EUA apareciam disfarçados pela bandeira da ONU, além do próprio
triunfo da revolução ter representado um grande revés para as
pretensões yankees. |
|
|
|
"Essa
poderosa nação, insurgente foi um dos alvos preferidos do cinema
americano durante a Guerra Fria, só superada pelo ataque a URSS e
talvez a antiga Alemanha Oriental". |
|
|
|
O fato é
que os "amarelos ateus" povoaram muitos roteiros da fábrica dos
sonhos, assim como o imaginário de muitos cinéfilos incautos. Os seres
diabólicos, que se esgueiravam por traz da Cortina de Bambu não mereciam
um tratamento melhor que o dispensado aos nazistas e japoneses durante a
Segunda Guerra. Filmes sobre a Coréia entre os muitos que foram rodados
como Capacete de Aço (Samuel Fuller,1951), Os Bravos Morrem
de Pé (Lewis Milestone,1959) e Sob o Domínio do Mal
(John Frankenheimer,1962) nos quais procurava-se expiar as culpas e
mostrar os EUA como vencedores de um conflito no qual desgastaram sua
imagem, assim como de alguns ícones forjados no calor da Segunda Guerra.
Mcarthur e sua solução atômica para o conflito eram demasiados
reacionários mesmo durante o reinado de Joe McCarthy. |
|
|
No principio dos
anos setenta com aproximação entre Nixon e Mao Zedong (A Sintonia entre
Moscou e Pequim que nunca foi muito boa, nesta época estava praticamente
cortada), as coisas pareciam mais calmas e o flerte entre EUA e China era
possível através da "Política do Ping Pong" (vide Forrest
Gump). Neste período, podíamos até mesmo ligar a TV e encontrar
uma série americana na qual um jovem sino-americano (kwy Shang Cane /
David Carradine) perambulava pelo oeste dos EUA distribuído pancadas e
filosofia oriental (entre 72-74). Mesmo não sendo cinema era uma visão
muito mais humana dos chineses e de sua cultura. No cinema podíamos
encontrar Bruce Lee no auge de sua popularidade nos EUA lançando moda e
escola de artes marciais. |
|
|
O
distanciamento, isolamento e enfrentamento da China em relação a URSS
nos anos seguintes, permitiu aos chineses uma trégua. Os monstros
amarelos foram esquecidos dos figurinos e roteiros. Como veremos, parece
que ficaram guardados no armário enquanto a China mostrava-se um aliado
ocasional para a política global americana. Com o desmoronamento do Leste
Europeu esses laços superficiais já não tem uma grande importância e
podem ser repensados. |
|
|
Neste final
de milênio nos deparamos novamente com o espectro vermelho vindo do
oriente como ameaça que paira sobre as liberdades individuais e
nacionais. Filmes como "Sete anos no Tibete",
"Justiça Vermelha" e o insuportável "Máquina
Mortífera Quatro" todos eles com astros muito famosos, e
carreiras comerciais de grande êxito no mundo todo, se esforçam para
mostrar claramente todas as mazelas do sistema de vida "imposto"
na China ou, pelos chineses, aos paradisíacos países vizinhos como
Tibete. |
|
|
Parece-nos
evidente que a preocupação com um dos últimos baluartes do socialismo
(apesar de todas as controvérsias), volta a ser uma alternativa válida
na medida em que a China mantém um Partido Comunista forte que controla o
Estado, e apesar de uma abertura e inserção econômica moderada não se
dobra a uma política totalmente norteada pelo mercado e especulações
financeiras. |
|
|
A
representação da ideologia dominante nas películas americanas
destinadas ao grande público mostra-se curiosamente paralela às
relações e intenções internacionais do Estado Americano. Portanto,
essa retomada hollywoodiana em relação a China não deve nos enganar, e
sim evidenciar que atualmente a única brecha na Pax Americana sob a
égide da globalização, reside não nos mistérios da China milenar, ou
nas contradições do imperialismo selvagem que prostrou a China de
joelhos durante muito tempo, mas sim nas conquistas e manutenção das
mesmas - ainda que a duras penas - da China Revolucionária. |
|
|
É bem
provável que não seja a China que derrube esse Império bastante novo,
mas com certeza ela tem muito mais chances de fazer frente aos
"senhores do mundo" do que o Vietname, Coréia do Norte ou uma
pequena ilha perdida e cada vez mais isolada no centro da América
Central. |
|
|
*Graduado em
História/UFRGS
e Mestrando em História Pelo Programa de Pós-graduação da PUCRS. |
|
|
Texto publicado
no número 23, março/1999 |
|