23031999
    Folha da História

 

De volta à China

 

  Nilo André Piana de Castro*
Recentemente parecia existir uma preocupação com os efeitos e poder da mídia em filmes hollywoodianos, como Mera Coincidência (Barry Levinson), Truman Show (Peter Weir) e o Quarto Poder (Costa-Gavras). Todos, filmes tratando temas recentes e interessantes do ponto de vista crítico. Ao voltarmos os olhos para o cinema mais comercial, e portanto de maior alcance como mídia, também podemos ver que o velho cinema de diversão ideológico anda funcionando a plena máquina.
Os "inimigos da liberdade" e fundamentalistas extremados continuam merecendo atenção e policiamento por parte de Tio Sam nas telas. Deixando os povos islâmicos de lado, o que o cinema americano não faz a muito tempo, nos deparamos com o resgate de um antigo "Vilão" surgido no final dos anos quarenta início dos cinqüenta, a China Vermelha. Hollywood mostra uma espécie de "face camaleônica" onde seus velhos artifícios vão e voltam, além de se moldarem conforme o contexto internacional, muitas vezes, tendo apenas uma nova maquiagem.
Essa poderosa nação insurgente, foi um dos alvos preferidos do cinema americano durante a Guerra Fria, só superada pelo ataque a URSS e talvez a antiga Alemanha Oriental. Isso deve-se em parte por ter ousado chocar-se com a política americana traçada para Ásia pós Segunda Guerra. Não podemos perder de vista o enfrentamento direto na Guerra da Coréia, onde os EUA apareciam disfarçados pela bandeira da ONU, além do próprio triunfo da revolução ter representado um grande revés para as pretensões yankees.
"Essa poderosa nação, insurgente foi um dos alvos preferidos do cinema americano durante a Guerra Fria, só superada pelo ataque a URSS e talvez a antiga Alemanha Oriental".
O fato é que os "amarelos ateus" povoaram muitos roteiros da fábrica dos sonhos, assim como o imaginário de muitos cinéfilos incautos. Os seres diabólicos, que se esgueiravam por traz da Cortina de Bambu não mereciam um tratamento melhor que o dispensado aos nazistas e japoneses durante a Segunda Guerra. Filmes sobre a Coréia entre os muitos que foram rodados como Capacete de Aço (Samuel Fuller,1951), Os Bravos Morrem de Pé (Lewis Milestone,1959) e Sob o Domínio do Mal (John Frankenheimer,1962) nos quais procurava-se expiar as culpas e mostrar os EUA como vencedores de um conflito no qual desgastaram sua imagem, assim como de alguns ícones forjados no calor da Segunda Guerra. Mcarthur e sua solução atômica para o conflito eram demasiados reacionários mesmo durante o reinado de Joe McCarthy.
No principio dos anos setenta com aproximação entre Nixon e Mao Zedong (A Sintonia entre Moscou e Pequim que nunca foi muito boa, nesta época estava praticamente cortada), as coisas pareciam mais calmas e o flerte entre EUA e China era possível através da "Política do Ping Pong" (vide Forrest Gump). Neste período, podíamos até mesmo ligar a TV e encontrar uma série americana na qual um jovem sino-americano (kwy Shang Cane / David Carradine) perambulava pelo oeste dos EUA distribuído pancadas e filosofia oriental (entre 72-74). Mesmo não sendo cinema era uma visão muito mais humana dos chineses e de sua cultura. No cinema podíamos encontrar Bruce Lee no auge de sua popularidade nos EUA lançando moda e escola de artes marciais.
O distanciamento, isolamento e enfrentamento da China em relação a URSS nos anos seguintes, permitiu aos chineses uma trégua. Os monstros amarelos foram esquecidos dos figurinos e roteiros. Como veremos, parece que ficaram guardados no armário enquanto a China mostrava-se um aliado ocasional para a política global americana. Com o desmoronamento do Leste Europeu esses laços superficiais já não tem uma grande importância e podem ser repensados.
Neste final de milênio nos deparamos novamente com o espectro vermelho vindo do oriente como ameaça que paira sobre as liberdades individuais e nacionais. Filmes como "Sete anos no Tibete", "Justiça Vermelha" e o insuportável "Máquina Mortífera Quatro" todos eles com astros muito famosos, e carreiras comerciais de grande êxito no mundo todo, se esforçam para mostrar claramente todas as mazelas do sistema de vida "imposto" na China ou, pelos chineses, aos paradisíacos países vizinhos como Tibete.
Parece-nos evidente que a preocupação com um dos últimos baluartes do socialismo (apesar de todas as controvérsias), volta a ser uma alternativa válida na medida em que a China mantém um Partido Comunista forte que controla o Estado, e apesar de uma abertura e inserção econômica moderada não se dobra a uma política totalmente norteada pelo mercado e especulações financeiras.
A representação da ideologia dominante nas películas americanas destinadas ao grande público mostra-se curiosamente paralela às relações e intenções internacionais do Estado Americano. Portanto, essa retomada hollywoodiana em relação a China não deve nos enganar, e sim evidenciar que atualmente a única brecha na Pax Americana sob a égide da globalização, reside não nos mistérios da China milenar, ou nas contradições do imperialismo selvagem que prostrou a China de joelhos durante muito tempo, mas sim nas conquistas e manutenção das mesmas - ainda que a duras penas - da China Revolucionária.
É bem provável que não seja a China que derrube esse Império bastante novo, mas com certeza ela tem muito mais chances de fazer frente aos "senhores do mundo" do que o Vietname, Coréia do Norte ou uma pequena ilha perdida e cada vez mais isolada no centro da América Central.
*Graduado em História/UFRGS e Mestrando em História Pelo Programa de Pós-graduação da PUCRS.
Texto publicado no número 23, março/1999

 

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