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Folha da História
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Nilo André
Piana de Castro* |
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O mais novo
Blockbuster (arrasa quarteirão) de Hollyood tem a assinatura de
Ridley Scott, Diretor que já foi responsável por filmes de fundo
histórico respeitáveis como Os Duelistas (The Duellists,
1977), ambientado nas guerras napoleônicas, e 1492 a Conquista do
Paraíso (1492- Conquest of Paradise, 1992), sobre a famosa
viagem de Cristóvão Colombo. É dele também a autoria de dois dos
maiores "cults" de ficção cientifica da década de oitenta: Alien,
o Oitavo Passageiro (Alien, 1979) e Blade Runner, O Caçador
de Andróides (Blade Runner, 1982). Sobre esse último, o fato
curioso é que a versão do diretor só saiu na década de noventa e, por
incrível que pareça, a imposta pelo estúdio continua sendo melhor. Não
bastasse isso, sua carreira conta, ainda, com Thelma e Louise (Thelma
and Louise, 1991), e o sucesso comercial Chuva Negra (Black
Rain, 1989). |
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Com esse
currículo respeitável na indústria cinematográfica e, principalmente,
nas bilheterias, coube a Scott retomar um gênero deixado de lado há
muito tempo pelo cinema: o épico sobre Roma. Os filmes grandiloqüentes
sobre o império dos césares foram deixados de lado no princípio da
década de sessenta. O fracasso de Cleópatra (Joseph Mankiewicz,
1963) e a pouca repercussão de A Queda do
Império Romano (The Fall of the Roman Impire, Anthony
Mann,1964) -- do qual esse Gladiador é um distante e remoto remake
- , fizeram com que as câmeras e os roteiros norte-americanos se
voltassem para outros temas. |
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"Roma
é a plebe, que precisa do circo, bem como a opinião pública dos
EUA deve sempre ser manobrada, conquistada ou entretida inclusive
pelo cinema. O soldado é como um cão de guerra do império e que
vive apenas para a glória de Roma tal como tem sido o exército
americano ao longo de sua história, na defesa de seu presidente
(imperador)". |
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Se,
antigamente, a "Cidade Eterna" era reconstituída
cenograficamente com papelão, compensado, madeira, gesso e algumas raras
tomadas em ruínas históricas, nos dias de hoje a tecnologia da
computação gráfica consegue todo o efeito antigo e muito mais,
construindo imagens colossais de um passado distante. Ou seja, recriar
ambientes antigos em tom espetacular é muito menos complicado para os
cineastas hoje. Assim, algo que parecia superado pelo cinema é trazido de
volta como principal atrativo em um filme: o espetáculo. A capacidade de
Hollyood em retomar temas passados e anteriormente quase esgotados
continua sendo prodigiosa: alguns anos atrás tivemos a volta do western,
depois da catástrofe e, porque não, do épico romano? |
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A história
de Gladiador parece uma repetição de outras mil que foram levadas
adiante nos "filmes de lataria" (como os exibidores
classificavam os épicos). Ou seja; nada de novo. Um justo e bom soldado
é traído, sua família é massacrada, mas ele escapa da morte para poder
vingar-se do filho amalucado do sábio Imperador que, por sua vez, sempre
cobiçou o trono de césar, ao ponto de matar o pai. Até ai tudo são
clichês cinematográficos. O que realmente muda é o tipo de imagem que o
cinema consegue produzir hoje. A batalha travada em um bosque na Germânia,
é de um primor realista espantoso. O mesmo é válido para todas as cenas
de lutas, sejam elas em arenas periféricas ou no Coliseu. Também estão
presentes as oscilações de luminosidade consagradas pelo diretor. Quem
não se lembra da luz solar passando através do exaustor de ar em Blade
Runner, dando um toque plástico relevante no filme? Nessa sua última
produção, a luz passa por arcos ornamentais e detalhes da arquitetura
clássica, construindo um belo efeito visual. |
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Alguns
dirão que o valor histórico nesse filme está nos cuidados de
reconstituição de época, nas fantásticas cenas do Coliseu, ou mesmos
das ruas de Roma. Mesmo que ele cometa erros eternizados pelo cinema, como
o sinal para prosseguir o combate que eliminava o adversário vencido na
arena (polegar para cima e não para baixo); ou do tipo que leva o
público a conclusões erradas sobre a história, pois Roma não voltaria
a ser uma República como o final do filme nos faz crer. Ou ainda, que
construa alguns personagens apenas baseado na visão politicamente correta
dos dias atuais. O caso da irmã de Cômodus. |
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Por outro
lado, a veia propagandista de Goebbels já se utilizava do fundo
histórico em filmes para mostrar situações do presente, reconhecendo
nisso uma técnica muito eficiente. Devemos ter em conta a origem
publicitária do diretor Ridley Scott para tentar avaliar as relações do
presente que talvez estejam visíveis no seu filme: o Império Romano
impondo sua "pax", assim como os EUA hoje; a
impossibilidade dos bárbaros periféricos em opor-se à conquista da
mesma maneira que o Iraque ou a Sérvia ao desafiarem os EUA. Qualquer
semelhança entre as guerras travadas longe da metrópole (e hoje vistas
também através da mídia, como os "jogos de arena"
eletrônicos) não é mera coincidência. Roma é a plebe, que precisa do
circo, bem como a opinião pública dos EUA deve sempre ser manobrada,
conquistada ou entretida inclusive pelo cinema. O soldado é como um cão
de guerra do império e que vive apenas para a glória de Roma tal como
tem sido o exército americano ao longo de sua história, na defesa de seu
presidente (imperador). |
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O filme nos
possibilita algumas outras conexões com a matriz de metrópole universal
fornecida pelos norte americanos atualmente. E mais do que isso, parece
estar questionando sobre suas falhas. O perigo de não delimitar as
dimensões do Império em constante expansão. Nisso revela uma
preocupação com o "Limes" entre civilização e
barbárie. Selvageria que a própria Roma leva para seu seio (Coliseu), do
mesmo modo que a América do Norte ao exercer um controle cada vez maior
sobre a América Latina e outras regiões do globo, e viver com suas ruas
cheias "bárbaros" latinos, orientais, etc. . Estes, por sua
vez, se aglutinados e organizados podem desafiar os americanos dentro do
seu sistema (como os gladiadores no circo). E finalmente, a presidência
imperial, se a nação não tiver um líder sábio como Marco Aurélio,
mas talvez outro Nixon, ou algum messiânico, carismático, enfim um porra
louca capaz de por tudo a perder (Cômodus). |
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Se
utilizarmos algum tipo de visão capaz de relacionar esses e outros
anacronismos, entre o passado e o presente, podemos compartilhar da
impressão de Moacyr Scliar sobre o filme quando se refere às
interpretações esquerdistas geradas pela máquina do capital com grande
lucro: "Uma contradição semelhante à destruição criativa que
é uma característica (dialética) maior desse regime econômico.".
Mas, tão pouco isso, é inovação na fabrica dos sonhos. Spartacus (Stanley
Kubrick, 1959). Já tinha se utilizado desses expedientes. Contudo, muitas
vezes eles fogem ao controle do diretor, ou dos produtores e até mesmo do
estúdio. No caso de Scott pode ser um pouco prematuro concluir, mas
parece que o diretor faz uma crítica que além de ser construtiva é
preventiva para os EUA. |
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Entretanto,
ao final da película, Scott nos deixa tranqüilos: ao passo em que o
ex-general e gladiador Maximus se encaminha para sua outra vida, resta a
certeza que a águia imperial romana continua a reinar sobre o mundo e a
zelar por sua "pax". E muito pouco importa que ela tenha
se chamuscado um pouco ao longo de todos esses anos (180 d.c. à 2000)
menos importante ainda é fato de que, nos últimos 55 anos ela tenha
perdido a plumagem da cabeça. |
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*Graduado em
História/UFRGS
e Mestrando em História Pelo Programa de Pós-graduação da PUCRS. |
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Texto publicado
no número 37, julho/2000 |
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