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Folha da História

Especial

 

 

MÉXICO REBELDE: A LUTA DO EXÉRCITO ZAPATISTA DE

LIBERTAÇÃO NACIONAL – EZLN

(1ª parte)

RENATO BARBIERI*

 

   

          O México é um país que tem 20 mil anos de evolução histórica e 2 mil anos de vida urbana. Nele se desenvolveram civilizações avançadas como a olmeca, a maia e a asteca (méxica), as quais alcançaram realizações consideráveis no campo das artes, da ciência e da técnica, e elaboraram formas complexas de organização política e social.

            O país ocupa a porção sul da América do Norte. Em sua maior parte é formado por cadeias montanhosas. A maioria da população concentra-se no planalto central, onde o clima é temperado. A poluição  do ar, da água e do solo é grande nas zonas industriais. O desflorestamento chega a 6 mil quilômetros quadrados por ano. A Cidade do México e sua periferia sofrem níveis altíssimos de poluição atmosférica.

            A composição étnica dos mexicanos nasce da mestiçagem de povos da América Central e dos conquistadores espanhóis. Dos 56 grupos indígenas que subsistem na atualidade, os mais importantes são: tarahumaras, nahuas, huicholes, purépechas, mixtecos, zapotecas, lacandones, otomíes, totonacas e maias. Em torno de 8 milhões de mexicanos vivem no sul dos Estados Unidos.

Os principais partidos políticos são: o Partido Revolucionário Institucional – PRI, que esteve no poder desde a sua fundação em 1929, até as recentes eleições mexicanas, em julho de 2000; Partido Ação Nacional – PAN, fundado em 1939; Partido da Revolução Democrática – PRD, dirigido por Cuauhtémoc Cárdenas. O PRD ganhou as últimas eleições presidenciais no México, desbancando 71 anos de poder do PRI.

ASPECTOS DO ZAPATISMO

          Chiapas é ao mesmo tempo uma velha e uma nova História. Desde sempre contada de pai para filho, desenhada nas cavernas e escondida nos livros. Declamada em versos e condenada em leis. Estampada na esperança e sentida na fadiga e no castigo.

            Entre os anos 80 e 90, a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética - URSS, criaram um mundo pós-Guerra Fria, onde os “vencedores” alardeavam promessas de paz num futuro sem diferenças. O capitalismo teria vencido e, imediatamente, decretou-se o final da História, da luta de classes e do socialismo. O neoliberalismo e a grande mídia, que o legitima e justifica, abocanharam os frutos das conquistas sociais de séculos de luta, que para determinados especialistas somente uma ideologia cada vez mais ferrenha, unilateral e preocupada em tapar todas as brechas permite a existência do vigente sistema dominante.

Em 1º de janeiro de 1994, porém, um fato surpreendeu os distraídos olhos do mundo: no paupérrimo estado mexicano sulista de Chiapas, habitado predominantemente por indígenas e com economia agropecuária, emergiu algo novo (ou rejuvenescido, se preferirmos), uma guerrilha de encapuzados que falam em solidariedade mundial sem fronteiras, contra o neoliberalismo e que todo homem, mulher e criança tenha acesso ao bem da vida. A ação inaugural do Exército Zapatista de Libertação Nacional – EZLN, constituiu-se na tomada de San Cristoban de Las Casas, capital chiapaneca com mais de 100 mil habitantes, e, posteriormente, de outras cidades como Altamirano, Chanaal, Ocosingo e Las Margaritas. Alguns combates foram travados, mas basicamente a estratégia era o “seqüestro” temporário das cidades pelos milicianos seguida de uma manifestação pública discorrendo sobre seus objetivos, bem como, as condições históricas que os impelem: séculos e séculos de pilhagens, miséria, descaso das autoridades e eleições fraudulentas. Os zapatistas asseguram que cansaram-se de esperar, e que a revolta armada foi o expediente derradeiro perante um governo que, a serviço dos Estados Unidos da América - EUA e suas corporações financeiras internacionais, vem dilapidando a dignidade indígena e humana como um todo.

O arcabouço teórico e prático da nova guerrilha tem suscitado uma gama de questões que abarcam segmentos da esquerda e da direita, tanto pelo seu ineditismo, quanto pela reformulação de antigos métodos. Parece que um dos legados deixados por Emiliano Zapata (Líder da Revolução Mexicana ao lado de Pancho Villa) aos seus herdeiros é, justamente, a promoção de acaloradas discussões referentes à validade e amplitude do movimento. Uma de suas inovações passa pela utilização, em larga escala, da Rede Mundial de Computadores - Internet, colocando-os, inegavelmente, em harmonia com o que há de mais significativo e moderno em termos de rede de comunicações. As suas idéias navegam e alcançam todo o globo através de um sistema ainda não completamente vigiado, apesar de alguns esforços, por parte de seus adversários. O computador proporciona, com uma velocidade espantosa, que os zapatistas sejam lidos, vistos e compreendidos, por exemplo, por um simpatizante morador do Brasil ou Japão, na privacidade de seu quarto. Fato inimaginável nos dias de Che Guevara e ponto considerável tendo em vista um meio de comunicação que, anualmente, aumenta seus usuários.

Esse instrumental tecnológico de ponta fomenta, aliado a outros fatores, uma empatia mundial em torno da causa. No ano de 1995, neste sentido, realizou-se na Selva de Lacandona, no México, o “I Encontro Contra o Neoliberalismo e pela Humanidade”, contando com aproximadamente 4 mil representantes de 41 nações, inclusive do Brasil. Sabe-se, igualmente, da presença de jovens de diversas nacionalidades que prestam um sem-número de serviços aos indígenas (aulas para adultos e crianças, atendimento médico, etc.) e, direta ou indiretamente, aos guerrilheiros zapatistas. Em geral, eles levantam acampamento em aldeias ou faixas de terra situadas entre a zona de domínio do exército nacional e o território ocupado pelos zapatistas, primordialmente a Selva de Lacandona, criando, assim, uma espécie de “zona neutra ou diplomática”. Contudo, o governo do México nem sempre é tão condescendente, como no caso dos jovens finlandeses que foram aprisionados e remetidos de volta ao seu país sob a acusação de colaboracionismo com a guerrilha. Cabe ressaltar que não é somente o desprendimento e o radicalismo da juventude que se fazem presentes. As manifestações de apoio chegam de toda parte. O romancista português José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1998, se converteu em um entusiasta do EZLN, o que o fez observar o problema in loco. O escritor uruguaio Eduardo Galeano e o intelectual estadunidense James Petras participaram da reunião supracitada. Antônio García de Leon, professor da Divisão de Pós-Graduação da Faculdade de Economia da Universidade Nacional do México é assessor do exército rebelde.

Por outro lado, os zapatistas sofrem críticas de setores de Partidos Comunistas que os enquadram dentro de uma espécie de dinâmica pós-moderna, devido, entre outros critérios, ao uso da tecnologia virtual, à ausência reivindicatória de paradigmas esquerdistas tradicionais (inclusive o de se considerarem a vanguarda) e ao descomprometimento quanto à tomada do poder (existem, neste aspecto, divergências dentro do próprio EZLN). Reclamam da democratização do poder e do surgimento de uma nova ética no trato político. Tal crítica é explicável, também, em virtude da arraigada concepção de luta armada revolucionária comumente adotada pelos partidos comunistas.

No caso mexicano, todos ao seu modo, e em qualquer lugar, são potencialmente zapatistas e reconhecidos como tal. A luta contra o inimigo maior pode e deve, de acordo com essa concepção, englobar o grande leque de descontentes. O pressuposto essencial, portanto, é que sendo o universo das exclusões amplo e multifacetado, deve-se incorporar a abrangência das rebeldias. Esse despertar da união, essa força que fascina, une os zapatistas com o planeta e se exprime de diversas formas. Em 1997, por exemplo, a Rede Bandeirantes de Televisão anunciava aos seus telespectadores um novo programa noturno semanal, e, para inaugurá-lo, o tema elencado foi, justamente, o Zapatismo. Quando foi ao ar, o que se viu foi um momento raro na televisão brasileira. Surpreendentemente, o “exército das montanhas” foi analisado com uma roupagem tal que os mais desavisados poderiam dizer que era uma produção de emissora alternativa. Ali transpareceu que a profundidade do drama do povo de Chiapas tornava filosoficamente correto o caminho das armas percorrido pelos guerrilheiros. Através da força das imagens — que quase sempre chocam mais que o texto escrito — exibiu-se a implacável dureza das tropas federais, dos grupos paramilitares financiados pelo latifúndio (Guardas Brancas), da ausência de uma política governamental, das condições de vida, dos massacres e das injustiças perpetradas na região. Tudo desfechado por uma balada cantada pela cantora Mercedes Sosa, onde um dos versos pedia: “Hermano, dame tu mano, vamos juntos a buscar una cosa pequeñita que se llama liberdad”. Mostrou-se, enfim. que aqueles índios são autênticos herdeiros da dor de seus antepassados. O que não causou espanto, entretanto, é que aquele foi o primeiro e único episódio da série prometida.

*Renato Barbieri, licenciado em História pela UFRGS, Pós-graduação em História Contemporânea pela FAPA-RS. Este texto foi publicado em abril de 2000. A republicação deve-se a sua atualidade quando comunidades seguem sob repressão do Exército mexicano e de paramilitares.  A foto da chamada na página principal e o mapa é reprodução do jornal Brasil de Fato (número 122).