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1º PARTE:

MÉXICO REBELDE: A LUTA DO EXÉRCITO ZAPATISTA  DE LIBERTAÇÃO NACIONAL - EZLN  (1ª parte)

 

 

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Folha da História

Especial

 

 

MÉXICO REBELDE: A LUTA DO EXÉRCITO ZAPATISTA DE

LIBERTAÇÃO NACIONAL – EZLN

(2ª parte)

RENATO BARBIERI*

 

         Os zapatistas são liderados por um homem que se atribui o nome de “Subcomandante Marcos“. “Todos os guerrilheiros são poetas”, certa ocasião afirmou alguém. “Ainda mais guerrilheiros latino-americanos”, complementou outro. Provavelmente esse seja um elemento adicional do fenômeno zapatista. Marcos é leitor de William Shakespeare, fala inglês e francês, e principal porta-voz do grupo, encarna esse papel ao conceder entrevistas e redigir comunicados com uma torrente retórica e poética avassaladora, capaz de tocar emotivamente o reticente “zapatista” do outro lado do planeta. Seus depoimentos atinentes às mulheres e à posição que ocupam na milícia são significativos (algumas detém, inclusive, postos de mando), apesar da tradição machista por ele reconhecida, e ainda presente no seio das comunidades indígenas. Suas respostas corrosivas, suas percepções quanto à estrutura do poder mexicano, suas opiniões a respeito de História, da democracia zapatista (as decisões são tomadas por todos em assembléia geral e possuem uma relação intrínseca com as comunidades indígenas), das possibilidades de mudança social encaminhadas pelos guerrilheiros, bem como sua análise pertinente à concentração de olhares em torno de sua figura, entre outros aspectos, chamam a atenção. Marcos entende que a sua, às vezes, excessiva exposição é, de certa forma, um mal necessário — um risco a correr —(a mídia toma conhecimento do problema e o divulga), contudo, o gorro “passa-montanhas” lhe garante o mínimo de vaidade e uma identificação, às avessas, com as outras pessoas. Ou seja, Marcos pode ser qualquer um de nós. E mais: dentro dos zapatistas sua substituição, em princípio, poderia ser imediata.

        Os zapatistas têm uma linha de pensamento que basicamente contempla cinco pontos: as guerrilhas urbana (de onde Marcos é originário) e camponesa, o marxismo, a religião (em especial os preceitos da Teologia da Libertação) e os costumes dos índios. Como explicar que esses pontos, aparentemente díspares, se coadunaram?

         As tentativas na procura de respostas não deveriam esquecer que o cenário político mexicano é, desde 1946, dominado e estrangulado pelas mãos do Partido Revolucionário Institucional (PRI) —, dissidência do antigo Partido Nacional Revolucionário (PNR) — um dos representantes mais escandalosos de corrupção no poder já presenciados na América Latina. A agremiação pode ser entendida, ainda hoje, como um abafador da radicalidade dos ecos revolucionários de 1910 e sua gama de avanços sociais (em especial, a reforma agrária). A trilha para a chegada ao cargo máximo da nação se mostrou, praticamente, obstaculizada para os oponentes do PRI; as perspectivas, nesse sentido, nos derradeiros suspiros do milênio são escassas, senão nulas. Para se ter uma idéia da situação, vale registrar dois capítulos recentes enfocando as eleições presidenciais mexicanas: o primeiro sucedeu-se em 1988, no pleito polarizado entre Cuahutémoc Cardénas e Carlos Salinas de Gortari (PRI). A apuração encerrou com Cardénas na dianteira mas, de súbito, a rede de informática entrou em pane e, quando voltou ao ar; Gortari passou à frente, sagrando-se vencedor com margem superior de 1 % dos votos. Depois, em plena campanha de 1994, assassinou-se o candidato Luís Donaldo Colosio, membro do PRI, que havia explicitado repúdio à longa lista de fraudes e prometido alterar as viciadas estruturas do seu partido. Assume, então, Ernesto Zedillo, também pertencente aos quadros do PRI, dando a entender, em alguns depoimentos, os descaminhos adotados por Gortari que, por seu turno, jogou a culpa em seu antecessor... Brigas intra-classe dominante à parte, essa histórica conjuntura se converteu na mola propulsora para florescimento da guerrilha urbana que se transferiu, estrategicamente, para o âmbito rural. No que tange à oposição institucional, em 1988, funda-se a Frente Nacional Democrática (FND), fruto de um racha no PRI, que deu à luz ao Partido Revolucionário Democrático (PRD). Essa facção mais progressista deixa translúcidas as dificuldades de se sobreviver física e politicamente fora do manto onipotente do “Partido/Nação”. James Petras. há quase dois anos atrás, colocava que a realidade política do México é tremendamente repressiva: em média, dois dirigentes ou ativistas do PRD (a esquerda legal parlamentar) morrem assassinados a cada semana (mais de 250 desde a eleição do presidente Zedillo). Pode-se imaginar o que ocorreria aos zapatistas se saíssem da selva e começassem a organizar-se seriamente. Adiciona-se a este painel o surgimento, em 1996, do EPR (Exército Popular Revolucionário), facção armada com a atuação concentrada na parcela sulista do país. 

        O neoliheralismo mexicano, quando da sua implantação, foi declamado em prosa e verso como o exemplo a ser seguido pelo restante de seus hermanos latinos. A mídia se fartou em difundir as suas infindáveis benesses e assegurava que o mesmo seria a quintessência da social-democracia terceiro mundista. Mas o tempo é, algumas vezes, o senhor da razão. Em 1995, pois, a já cambaleante economia mexicana não mais conseguiu ficar de pé ante o forte receituário de destilados liberais, vindos da América do Norte e da Europa. O certo é que o que ficou conhecido por Efeito Tequila foi na verdade o Efeito Whisky Falsificado. Bancarrota esta relacionada com as exigências do FMI (Fundo Monetário Internacional), do Banco Mundial e outros, além dos ditames para a integração do país ao NAFTA (Tratado de Livre Comércio da América do Norte) que estipulavam, em seu conjunto, a privatização das terras comunais indígenas (ejidos), a venda da PEMEX e outras empresas estatais mexicanas, a redução das verbas públicas, a diminuição das taxas de importação, etc. Em 1992, outra determinação foi cumprida à risca pela administração de Zedillo: cerca de 20 milhões de crianças se depararam com novos e inusitados livros-texto de história que ensinavam, por exemplo, que a perda de mais da metade do território mexicano para os EUA foi ‘um fato quase natural’, pois seriam ‘terras sem relações culturais’ com o resto do país, e que a abertura ao capital estrangeiro promovida por Porfírio Díaz, na virada do século anterior foi fundamental ao desenvolvimento econômico nacional. Os novos manuais minimizavam o passado de lutas do país onde ocorrera a primeira grande revolução social moderna da História: a Revolução Mexicana (Zapata e Villa, por exemplo, quase são omitidos na questão da reforma agrária) e abordava apenas ligeiramente as sempre difíceis relações com os EUA (particularmente após a nacionalização do petróleo feita por Lázaro Cárdenas, em 1938).

         Em todo o mundo, liberdade e democracia podem adquirir sentidos vagos e amplos. É preciso, então, esmiuçar o que significam, na visão zapatista e dentro da atual ordem mexicana e planetária que, conforme mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), abriga aproximadamente 834 milhões de pessoas, que estão na iminência de morrer de subnutrição — uma cifra oito vezes maior do que em 1996. Em julho de 1998, os insurgentes lançaram a “V Declaração da Selva de Lacandona”, denunciando a ininterrupta violência perpetrada pelas forças armadas às comunidades indígenas, e expressando suas propostas pacifistas e a busca de uma saída negociada para o conflito. O documento é assentado sobre a conquista do lugar dos povos indígenas no México (vítimas de discriminações éticas e sociais dos brancos), agora não mais, simplesmente, como alegorias turísticas ou vendedores de artesanato, mas com direitos iguais a qualquer outro cidadão. Ressalvando, entretanto, a relevância da preservação de sua identidade, territorialidade e sistema organizacional, inseridos em um México não fragmentado. Em uma palavra: uma lei ou um programa que inclua os índios na sociedade de seu país. Essa linha mestra, ou seja, o erguimento de outras bases de convívio entre os indígenas e a nação mexicana, ficou registrada nas cláusulas do Acuerdo de San Andrés (fevereiro de 1996) e na Comision de Concordia y Pacificacíon del Congreso de la Unión COCOPA — (novembro de 1996), o primeiro assinado por representantes do governo federal. Entretanto, esta intenção principal vem sendo desrespeitada pelo mesmo, concluí-se, portanto, que leis, decretos e carimbos, apesar de seus avanços e de sua reconhecida importância, por si só não bastam para resolver uma pendência que já dura mais de quinhentos anos. É imprescindível a construção de condições que promovam a dignidade e a voz indígena — ou dos excluídos de qualquer parte, como advogam os zapatistas. Na Declaração, igualmente, asseguram que procederão a uma “Consulta Nacional sobre a Iniciativa da Lei Indígena e Pacificação e pelo Fim da Guerra de Extermínio”.

       Tendo tudo isto em perspectiva, percebe-se hoje uma retração nas atividades guerrilheiras. Porém, seu poder de comunicação, arrebatamento e resistência, em considerável medida, permanecem intactos.

       Zapatismo: Utopia? Romantismo? Porque não? O inequívoco é que historicamente — não consta nos livros de Zedillo —, foram os “loucos”, os com coragem suficiente para enfrentar os poderosos e seus segregacionismos que imprimiram a marca da dignidade e da lucidez na pele da humanidade. Enquanto existirem pessoas resistindo nas selvas, que alguns antropólogos chamam de “México Profundo”, a civilização conseguirá se olhar no espelho. Mas, entretanto, somente conseguirá tirar o capuz da intolerância e do descaso quando, em primeiro lugar, os índios tzotziles, tzetales, choles e tojolabales puderem, sem receios, tirarem os seus.

*Renato Barbieri, licenciado em História pela UFRGS, Pós-graduação em História Contemporânea pela FAPA-RS. Este texto foi publicado em abril de 2000. A republicação deve-se a sua atualidade quando comunidades seguem sob repressão do Exército mexicano e de paramilitares.  A foto da chamada na página principal e o mapa é reprodução do jornal Brasil de Fato (número 122).