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Os zapatistas são
liderados por um homem que se atribui o nome de “Subcomandante
Marcos“. “Todos os guerrilheiros são poetas”, certa ocasião
afirmou alguém. “Ainda mais guerrilheiros latino-americanos”,
complementou outro. Provavelmente esse seja um elemento adicional do
fenômeno zapatista. Marcos é leitor de William Shakespeare, fala
inglês e francês, e principal porta-voz do grupo, encarna esse
papel ao conceder entrevistas e redigir comunicados com uma torrente
retórica e poética avassaladora, capaz de tocar emotivamente o
reticente “zapatista” do outro lado do planeta. Seus depoimentos
atinentes às mulheres e à posição que ocupam na milícia são
significativos (algumas detém, inclusive, postos de mando), apesar
da tradição machista por ele reconhecida, e ainda presente no seio
das comunidades indígenas. Suas respostas corrosivas, suas percepções
quanto à estrutura do poder mexicano, suas opiniões a respeito de
História, da democracia zapatista (as decisões são tomadas por
todos em assembléia geral e possuem uma relação intrínseca com
as comunidades indígenas), das possibilidades de mudança social
encaminhadas pelos guerrilheiros, bem como sua análise pertinente
à concentração de olhares em torno de sua figura, entre outros
aspectos, chamam a atenção. Marcos entende que a sua, às vezes,
excessiva exposição é, de certa forma, um mal necessário — um
risco a correr —(a mídia toma conhecimento do problema e o
divulga), contudo, o gorro “passa-montanhas” lhe garante o mínimo
de vaidade e uma identificação, às avessas, com as outras
pessoas. Ou seja, Marcos pode ser qualquer um de nós. E mais:
dentro dos zapatistas sua substituição, em princípio, poderia ser
imediata.
Os zapatistas têm uma linha de pensamento que basicamente contempla
cinco pontos: as guerrilhas urbana (de onde Marcos é originário) e
camponesa, o marxismo, a religião (em especial os preceitos da
Teologia da Libertação) e os costumes dos índios. Como explicar
que esses pontos, aparentemente díspares, se coadunaram?
As tentativas na procura de
respostas não deveriam esquecer que o cenário político mexicano
é, desde 1946, dominado e estrangulado pelas mãos do Partido
Revolucionário Institucional (PRI) —, dissidência do antigo
Partido Nacional Revolucionário (PNR) — um dos representantes
mais escandalosos de corrupção no poder já presenciados na
América Latina. A agremiação pode ser entendida, ainda hoje, como
um abafador da radicalidade dos ecos revolucionários de 1910 e sua
gama de avanços sociais (em especial, a reforma agrária). A
trilha para a chegada ao cargo máximo da nação se mostrou,
praticamente, obstaculizada para os oponentes do PRI; as
perspectivas, nesse sentido, nos derradeiros suspiros do milênio
são escassas, senão nulas. Para se ter uma idéia da situação,
vale registrar dois capítulos recentes enfocando as eleições
presidenciais mexicanas: o primeiro sucedeu-se em 1988, no pleito
polarizado entre Cuahutémoc Cardénas e Carlos Salinas de Gortari (PRI).
A apuração encerrou com Cardénas na dianteira mas, de súbito, a
rede de informática entrou em pane e, quando voltou ao ar; Gortari
passou à frente, sagrando-se vencedor com margem superior de 1 %
dos votos. Depois, em plena campanha de 1994, assassinou-se o
candidato Luís Donaldo Colosio, membro do PRI, que havia
explicitado repúdio à longa lista de fraudes e prometido alterar
as viciadas estruturas do seu partido. Assume, então, Ernesto
Zedillo, também pertencente aos quadros do PRI, dando a entender,
em alguns depoimentos, os descaminhos adotados por Gortari que, por
seu turno, jogou a culpa em seu antecessor... Brigas intra-classe
dominante à parte, essa histórica conjuntura se converteu na mola
propulsora para florescimento da guerrilha urbana que se transferiu,
estrategicamente, para o âmbito rural. No que tange à oposição
institucional, em 1988, funda-se a Frente Nacional Democrática (FND),
fruto de um racha no PRI, que deu à luz ao Partido Revolucionário
Democrático (PRD). Essa facção mais progressista deixa
translúcidas as dificuldades de se sobreviver física e
politicamente fora do manto onipotente do “Partido/Nação”.
James Petras. há quase dois anos atrás, colocava que a realidade
política do México é tremendamente repressiva: em média, dois
dirigentes ou ativistas do PRD (a esquerda legal parlamentar) morrem
assassinados a cada semana (mais de 250 desde a eleição do
presidente Zedillo). Pode-se imaginar o que ocorreria aos zapatistas
se saíssem da selva e começassem a organizar-se seriamente.
Adiciona-se a este painel o surgimento, em 1996, do EPR (Exército
Popular Revolucionário), facção armada com a atuação
concentrada na parcela sulista do país.
O neoliheralismo mexicano, quando da sua implantação, foi
declamado em prosa e verso como o exemplo a ser seguido pelo
restante de seus hermanos latinos.
A mídia se fartou em difundir as suas infindáveis benesses e
assegurava que o mesmo seria a quintessência da social-democracia
terceiro mundista. Mas o tempo é, algumas vezes, o senhor da
razão. Em 1995, pois, a já cambaleante economia mexicana não mais
conseguiu ficar de pé ante o forte receituário de destilados
liberais, vindos da América do Norte e da Europa. O certo é que o
que ficou conhecido por Efeito
Tequila foi na verdade o Efeito
Whisky Falsificado. Bancarrota esta relacionada com as
exigências do FMI (Fundo Monetário Internacional), do Banco
Mundial e outros, além dos ditames para a integração do país ao
NAFTA (Tratado de Livre Comércio da América do Norte) que
estipulavam, em seu conjunto, a privatização das terras comunais
indígenas (ejidos), a venda da PEMEX e outras empresas estatais mexicanas, a
redução das verbas públicas, a diminuição das taxas de
importação, etc. Em 1992, outra determinação foi cumprida à
risca pela administração de Zedillo: cerca de 20 milhões de
crianças se depararam com novos e inusitados livros-texto de
história que ensinavam, por exemplo, que a perda de mais da metade
do território mexicano para os EUA foi ‘um fato quase natural’,
pois seriam ‘terras sem relações culturais’ com o resto do
país, e que a abertura ao capital estrangeiro promovida por
Porfírio Díaz, na virada do século anterior foi fundamental ao
desenvolvimento econômico nacional. Os novos manuais minimizavam o
passado de lutas do país onde ocorrera a primeira grande
revolução social moderna da História: a Revolução Mexicana
(Zapata e Villa, por exemplo, quase são omitidos na questão da
reforma agrária) e abordava apenas ligeiramente as sempre difíceis
relações com os EUA (particularmente após a nacionalização do
petróleo feita por Lázaro Cárdenas, em 1938).
Em todo o mundo, liberdade e democracia podem adquirir sentidos
vagos e amplos. É preciso, então, esmiuçar o que significam, na
visão zapatista e dentro da atual ordem mexicana e planetária que,
conforme mais recente relatório da Organização das Nações
Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), abriga
aproximadamente 834 milhões de pessoas, que estão na iminência de
morrer de subnutrição — uma cifra oito vezes maior do que em
1996. Em julho de 1998, os insurgentes lançaram a “V Declaração
da Selva de Lacandona”, denunciando a ininterrupta violência
perpetrada pelas forças armadas às comunidades indígenas, e
expressando suas propostas pacifistas e a busca de uma saída
negociada para o conflito. O documento é assentado sobre a
conquista do lugar dos povos indígenas no México (vítimas de
discriminações éticas e sociais dos brancos), agora não mais,
simplesmente, como alegorias turísticas ou vendedores de
artesanato, mas com direitos iguais a qualquer outro cidadão.
Ressalvando, entretanto, a relevância da preservação de sua
identidade, territorialidade e sistema organizacional, inseridos em
um México não fragmentado. Em uma palavra: uma lei ou um programa
que inclua os índios na sociedade de seu país. Essa linha mestra,
ou seja, o erguimento de outras bases de convívio entre os
indígenas e a nação mexicana, ficou registrada nas cláusulas do
Acuerdo de San Andrés (fevereiro de 1996) e na Comision
de Concordia y Pacificacíon
del Congreso de la Unión — COCOPA
— (novembro de 1996), o primeiro assinado por representantes
do governo federal. Entretanto, esta intenção principal vem sendo
desrespeitada pelo mesmo, concluí-se, portanto, que leis, decretos
e carimbos, apesar de seus avanços e de sua reconhecida
importância, por si só não bastam para resolver uma pendência
que já dura mais de quinhentos anos. É imprescindível a
construção de condições que promovam a dignidade e a voz
indígena — ou dos excluídos de qualquer parte, como advogam os
zapatistas. Na Declaração, igualmente, asseguram que procederão a
uma “Consulta Nacional sobre a Iniciativa da Lei Indígena e
Pacificação e pelo Fim da Guerra de Extermínio”.
Tendo tudo isto em perspectiva, percebe-se hoje uma retração nas
atividades guerrilheiras. Porém, seu poder de comunicação,
arrebatamento e resistência, em considerável medida, permanecem
intactos.
Zapatismo: Utopia? Romantismo? Porque não? O inequívoco é que
historicamente — não consta nos livros de Zedillo —, foram os
“loucos”, os com coragem suficiente para enfrentar os poderosos
e seus segregacionismos que imprimiram a marca da dignidade e da
lucidez na pele da humanidade. Enquanto existirem pessoas resistindo
nas selvas, que alguns antropólogos chamam de “México
Profundo”, a civilização conseguirá se olhar no espelho. Mas,
entretanto, somente conseguirá tirar o capuz da intolerância e do
descaso quando, em primeiro lugar, os índios tzotziles, tzetales,
choles e tojolabales puderem, sem receios, tirarem os seus.
*Renato Barbieri, licenciado em
História pela UFRGS, Pós-graduação em História Contemporânea
pela FAPA-RS. Este texto foi publicado em abril de 2000. A
republicação deve-se a sua atualidade quando comunidades seguem
sob repressão do Exército mexicano e de paramilitares. A
foto da chamada na página principal e o mapa é reprodução do
jornal Brasil de Fato (número 122).
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